Esses dias li o texto do Bret Stephens, no New York Times. Ele levanta uma discussão interessante sobre o uso de IA para escrever. O autor defende não usar IA nem mesmo para organizar notas ou produzir primeiros rascunhos.

Três pontos que me chamaram atenção no texto:

  • Escrever não é apenas comunicar; é uma forma de pensar. O esforço de transformar uma ideia em palavras nos obriga a organizar argumentos, identificar inconsistências e decidir exatamente o que queremos dizer. Ao terceirizar a escrita para uma IA, podemos estar terceirizando parte do processo de pensar.

  • Até a escrita cotidiana funciona como treinamento. E-mails, relatórios e textos, aparentemente triviais e que poderiam ser delegados pra IA sem “dor na consciência”, exercitam as mesmas capacidades usadas em tarefas intelectualmente mais complexas. O argumento do autor é que automatizar sistematicamente essas pequenas atividades pode reduzir a prática necessária para desenvolver e manter a capacidade de escrever e raciocinar.

  • O impacto pode ir além da qualidade dos textos gerados (que sabemos, é “meia boca”). Ele conecta escrita e leitura com a capacidade de formular e avaliar argumentos. A preocupação, portanto, não é simplesmente termos textos mais genéricos produzidos por IA, mas sim uma possível redução em habilidades relacionadas a pensamento crítico, criatividade e argumentação.

É um tópico muito próximo do meu coração, em particular, pq tenho dedicado muito do meu tempo aqui no blog compartilhando minhas experiências.

E tenho tido um sentimento parecido. Escrevi um texto 100% com IA apenas uma vez. Queria resumir todos os artigos publicados no MSR Mining Challenge e não conseguiria me dedicar horas lendo todos eles. A IA me ajudou demais, já que em alguns minutos eu consegui ter uma noção dos principais resultados desses papers. Mas o texto claramente não tem alma (veja a referência ao final).

Desde então, optei por escrever tudo com meus próprios dedos. Todos artigos que comento aqui, eu os li na íntegra. Às vezes peço para a IA me ajudar a gerar um resumo curto e bacana para o artigo, mas raramente uso o que ela produziu “as is”, sempre acabo reescrevendo para ficar com o meu tom.

A mesma coisa com apresentações que dou. Crio todos os slides com minhas próprias mãos. Meus slides são muito mais feios do que o Codex geraria pra mim, mas uso o processo de criação para “afinar” minha talk. É muito mais sobre pensar do que fazer. Aliás, sempre coloco o disclaimer no final, “slides feitos por mim, sem IA”, e as pessoas adoram. Tá todo mundo querendo um pouco de autenticidade de volta.

Referências